Brasil é um dos países que mais investem em educação

O anos 2000 aproximaram o Brasil dos países que mais investem verbas públicas em educação no mundo, mas a relação de recursos por aluno, a precariedade do ensino superior e da pesquisa e a qualidade duvidosa ainda evidenciam o atraso do País. Essas são algumas das conclusões tiradas da análise de 39 países feita pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e reunidas em um relatório de 570 páginas sobre a educação, publicado ontem, terça-feira, em Paris.

Segundo seu autor, entre 2000 e 2009 o Brasil foi a nação "mais dinâmica do mundo", melhorando os ensinos fundamental e médio, mas piorando o superior. O estudo, elaborado por Andreas Schleicher, diretor-adjunto da OCDE para Educação, é o mais amplo levantamento anual comparativo sobre o estado da educação no mundo.

Conforme a instituição - que reúne os países mais desenvolvidos do mundo -, o Brasil realizou um dos maiores aumentos de investimentos de seu Orçamento em educação no período de 2000 a 2009 entre as nações avaliadas - de 10,5% a 16,8% -, tornando-se o quarto no ranking e superando a média, de 13%. Esse resultado foi possível pelo incremento de 149% dos investimentos por aluno nos ensinos fundamental e médio, o que fez do País o que mais elevou as despesas entre 2005 e 2009.

Ao longo da década, o Brasil recuperou parte de seu déficit educacional investindo na área o equivalente a 5,5% de seu Produto Interno Bruto (PIB), embora o dado ainda seja inferior à média da OCDE, de 6,25%. No ensino primário e secundário, esse porcentual já ultrapassa a média - 4,23%, contra 4%.

Déficit

As notícias ruins se concentram no que se refere ao ensino superior, segmento em que o Brasil é o quarto pior da lista, com 0,8% do PIB. Nos anos 2000, o investimento brasileiro em universidades caiu 2% e não acompanhou o crescimento de 67% do número de alunos. Os resultados são ainda mais precários em pesquisa e desenvolvimento, área em que o Brasil é o pior de uma lista de 36 países, com 0,4% do PIB investido.

O problema, adverte a OCDE, é que o ensino superior exerce um papel econômico determinante no Brasil. De acordo com a organização, o mercado de trabalho nacional é o que apresenta a maior diferença entre quem conclui e quem não conclui a faculdade. Além de enfrentar um desemprego menor, quem tem curso superior ganha salários melhores.

Para Nelson Cardoso Amaral, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), a queda do investimento precisa ser vista em relação ao aumento do número de matriculados. "Houve um aumento do investimento bruto, até por conta do Reuni (programa de expansão do ensino superior do governo Lula). Isso foi bom, porque muitos chegaram ao ensino superior. O problema é que os valores gastos não foram suficientes para que não baixasse o valor por aluno. Isso precisa ser cuidado, porque não podemos deixar a qualidade cair."

Outra má notícia é que o acréscimo de recursos na educação, também verificado em vários países emergentes, como a Rússia, não eliminou o retardo da área. No ensino pré-primário, a média de gastos anuais por estudante do Brasil foi a terceira pior dentre 34 países - de US$ 1.696, comparado a US$ 6.670 da média da OCDE. O mesmo déficit acontece no ensino primário, no qual o País investe US$ 2.405, contra US$ 7.719 da média, o quarto pior resultado entre os 35 países avaliados. A relação é pior no ensino secundário, no qual o investimento é de US$ 2.235 - o terceiro pior -, contra US$ 9.312 da média de 37 países avaliados.

Embora a taxa de escolarização tenha aumentado na última década, mais de um em cada cinco brasileiros entre 15 e 29 anos não vai à escola nem tem emprego. Para o autor do estudo, os dados relativos ao País revelam um cenário contraditório. Se o Brasil investe mais nos ensinos fundamental e médio, o mesmo não acontece no superior e na pesquisa. E a melhora dos índices é relativa, pois na maior parte dos parâmetros, o País não chegou ao padrão médio dos países reputados pela qualidade do ensino.

"Por registrar mais investimento, mais participação, mais alunos na escola, mais pessoas completando a formação, diria que o Brasil é o país mais dinâmico do relatório", disse Schleicher ao Estado. Para ele, o aumento do investimento no ensino básico é "um sucesso".

Mas mais dinheiro não é tudo. "Melhorar a qualidade é um ponto crítico que ficou para trás. Há indicadores positivos de que a qualidade melhora, mas ainda precisa avançar muito mais."

Sem comparação

Para o professor Ocimar Alavarse, da Faculdade de Educação da USP, é preciso cuidado para que os números do aumento não sinalizem mais que a realidade. "Diferentemente das nações europeias, o Brasil ainda tem problemas como a carência de instalações físicas, crianças fora da escola. É claro que, nesse cenário, é preciso investir mais."

Uma comparação justa dos investimentos, explica, só será possível a médio prazo, quando o Brasil alcançar a universalização do atendimento - desde a creche até a Educação de Jovens e Adultos (EJA) -, infraestrutura básica, como o laboratório de ciências e plano de carreira docente.

 

Fonte: IstoÉ, publicado em 12/09/2012


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Manter os alunos na escola é o maior desafio do ensino médio

Dupla jornada, poucos professores e formação insuficiente são a tônica do último ciclo antes do vestibular. Mau desempenho no Ideb preocupa o governo

 

O ensino médio brasileiro é uma fonte de frustração. Não apenas por seu resultado pífio nas avaliações feitas pelo governo federal – em dez estados houve regressão no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2009 a 2011, entre eles o Paraná –, mas também pela condenação de milhares de jovens a uma perspectiva modesta de vida e por reduzir a capacidade de desenvolvimento do país. É na fase em que passam para a vida adulta, enquanto cursam o ensino médio, que os jovens que vencem as deficiências do ensino básico decidem sair da escola. Dos 90% que chegam ao fim do ciclo, uma parcela pequena tem os conhecimentos básicos exigidos para uma vida profissional promissora.

Segundo estatísticas do movimento Todos pela Edu­cação, menos de 35% dos alunos do último ano do ensino médio atingiram o nível de conhecimento adequado em Português e Matemática para a série. Além disso, as notas do Ideb mostram que a média geral desta etapa é 3,7, enquanto a dos primeiros anos do ensino fundamental é 5. É com esse conhecimento que a maioria dos jovens encara o mercado de trabalho. “A escolaridade básica para o mercado hoje é o ensino médio. Se ele é comprometido, a capacidade de desenvolvimento do país também fica limitada”, diz Nilson Vieira Oliveira, pesquisador de políticas públicas do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial.

Para os especialistas, o baixo desempenho pode, em grande parte, ser explicado porque o jovem não vê sentido em cursar o ensino médio e acaba, ao longo do caminho, dando prioridade ao trabalho. Os dados do questionário aplicado na Prova Brasil de 2009, exame que faz parte do cálculo do Ideb, mostraram que 60% dos estudantes da rede pública que iriam ingressar no ensino médio pretendiam trabalhar e estudar.

Durante a dupla jornada, as dificuldades são muitas. “A escola não fornece estrutura para isso. Faltam professores e mais bolsas do governo que ajudem a manter um estudante apenas na escola. Além disso, o currículo não é atrativo para o aluno, pois não ensina, por exemplo, a aplicar os conhecimentos na vida prática, como analisar um contrato de financiamento de um carro ou casa”, diz o consultor educacional Renato Casagrande.

Falta de identidade

Embora a pontuação das particulares no Ideb tenha sido superior à das públicas, o desempenho da rede privada ficou praticamente estagnado nos últimos anos. Os estudantes das classes média e alta, que não teriam necessidade de trabalhar, historicamente encaram o ensino médio apenas como uma porta de entrada para a universidade. Ou seja, o aluno ingressa nessa etapa pensando que precisa memorizar os conteúdos para ser aprovado no vestibular.

Este é o caso da estudante do 1.º ano do Colégio Acesso Joyce Gabriele dos Santos de Souza, 14 anos. Pela primeira vez em escola privada após cursar todo o fundamental na rede pública, ela estuda com o objetivo de ingressar no ensino superior daqui a três anos. Embora suas notas tenham caído em relação às da etapa anterior, ela acredita que o conteúdo que aprende é focado para um bom desempenho no vestibular, que, independentemente do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ainda existe em muitas instituições do país. “Agora é muito mais puxado, requer mais concentração e mais responsabilidade porque meu desempenho agora vai refletir lá na frente, na conquista do curso superior”, avalia.

Modernizar o currículo é uma das saídas

Por causa do baixo desempenho do ensino médio no Ideb 2011, o governo federal retomou a proposta de alterar o currículo dessa etapa e dividir as 13 disciplinas obrigatórias em grandes áreas. O debate, que começou em 2011 pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), sugere a mudança baseada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que está dividido em quatro grupos: Matemática, Linguagens, Ciências Humanas e Ciências da Natureza.

O consultor educacional Renato Casagrande diz que a ideia é uma boa alternativa, desde que venha acompanhada de uma melhor formação dos professores. “Não adianta mudar currículo sem professor que dê conta de ensiná-lo. Pelo menos um curso de capacitação para os docentes precisa ter.”

Escolha

Em países com bons modelos desta etapa do ensino, como nos Estados Unidos, por exemplo, o aluno pode escolher algumas disciplinas que quer cursar e assim focar na área de interesse. Para Casagrande, essa seria uma boa medida para se adotar aqui, como forma de aumentar o interesse pelo conteúdo.

Porém, para a professora do Departamento de Educação da Universidade de Campinas (Unicamp) Márcia Malavasi, de nada adianta uma mudança curricular sem alteração de estrutura, tanto de espaço físico como de corpo docente, e ajuda financeira para que o estudante não precise abandonar a escola para trabalhar. “Mesmo que o interesse aumente, se ele não tiver dinheiro para fazer o percurso entre casa, trabalho e escola, não adianta”.

 

Fonte: Gazeta do Povo, publicado em 26/08/2012


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Mudança curricular no ensino médio divide educadores no Brasil

O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, anunciou nesta semana que, em outubro, a pasta fará uma reunião para definir mudanças e incentivos para o ensino médio. A reunião tratará da reformulação curricular, proposta pelo MEC na segunda quinzena de agosto. A ideia é que o currículo seja organizado nas quatro áreas do conhecimento exigidas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) - matemática e suas tecnologias; linguagens, códigos e suas tecnologias; ciências da natureza e suas tecnologias e ciências humanas e suas tecnologias. Atualmente, o ensino médio da rede pública tem 13 disciplinas obrigatórias, mas pode chegar a 19 com as opcionais.

Frente aos maus resultados do ensino médio no Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico (Ideb), Mercadante defende que um currículo mais flexível e menos fragmentado pode melhorar o desempenho nessa área. Segundo o ministro, focar o ensino no Enem seria uma forma de atender às expectativas dos alunos, que, com a valorização do exame na entrada na universidade, vão cobrar principalmente uma coisa das escolas: passar no vestibular.

O professor Ocimar Munhoz Alavarse, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), no entanto, considera a proposta "estranha". "Essa posição diante dos resultados (do Ideb), sem um estudo aprofundado, é complicada. É preciso investigar, mas, pessoalmente, estou convencido de que número de disciplinas não é o maior problema - embora haja, de fato, muitas disciplinas", avalia. O educador também critica a proposta de utilizar o Enem como modelo para o ensino médio, inclusive para sua avaliação. "É dar um poder muito grande ao Enem. Nós podemos repensar o currículo, mas sem misturar as coisas. O Enem não tem tanto poder, nem deve ter", argumenta.

Para o professor, outras questões influenciam no baixo desempenho, como a falta de infraestrutura das escolas. No entanto, para ele, a questão principal é a formação e a contratação dos professores. Ele destaca que o ensino médio sempre teve dificuldades no recrutamento de profissionais qualificados. "Além disso, como nossos professores são formados? Por disciplinas", diz Alavarse, expondo uma das principais preocupações diante à reformulação: a adaptação dos docentes ao novo currículo.

O professor Chico Soares, que integra o grupo de avaliação e medidas educacionais da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, acredita que o processo é inverso. "Todos falam na formação do professor como se fosse um problema, mas antes de decidirmos como ele será formado, temos que saber o que ele irá ensinar. O ensino médio não tem solução antes que se mude o projeto dele", defende, ressaltando que o plano ainda está sendo discutido e que não há nada pronto para ser implementado.

Para Soares, houve um "ruído" na compreensão da nova proposta de ensino. Primeiramente, ele destaca que não se sugere uma "fusão" das 13 disciplinas em quatro áreas, mas sim dar foco e profundidade ao conhecimento. "A proposta é focar as competências. Nosso currículo tem 1 km de extensão e 5 cm de profundidade", declara. O educador acredita que as aulas devam ser direcionadas para aspectos práticos da vida do aluno.

Klinger Marcos Barbosa Alves, 2º vice-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), concorda com Soares ao dizer que ainda há mais perguntas do que respostas na mudança do ensino médio e que a proposta ainda está em construção. "Precisamos saber como isso será feito, como juntaremos as áreas sem prejudicar conteúdos", afirma. Para ele, assim como para Alavarse, um dos pontos mais polêmicos da proposta é a formação dos professores.

"É um novo perfil de formação do professor. Hoje, há licenciaturas específicas, são linhas que têm currículos e diretrizes nacionais. Esse docente deverá ter preparação para pensar o trabalho de forma diferente, e isso tem impacto nos currículos. Também precisamos pensar nos professores que já estão formados", diz.

O secretário aponta, contudo, outras questões que devem ser discutidas para a melhoria do ensino, como a evasão escolar. "O aluno já entra no ensino médio com dificuldade, com uma formação ruim, algo que já vem do ensino fundamental. Precisamos descobrir como trazer e manter o estudante na escola", afirma. Alves acrescenta à lista de dificuldades a pressão que o aluno sofre da família, que exige que ele trabalhe, o que tira tempo dos estudos.

"Talvez acoplamento em quatro áreas seja necessário, mas não seja a única medida que deva ser tomada", conclui o secretário, destacando a dificuldade, sob ponto de vista pedagógico, de manejar tantos professores no currículo atual.

Fonte: Terra, publicado em 01/09/2012


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